A volta do Camisa de Vênus, em turnê de 35 anos

camisadevenusSei que essa seção vai fazer alguns amantes mais radicais do sertanejo torcerem o nariz, é bem verdade. A ideia aqui é mostrar que também há vida inteligente fora do nosso gênero, num país de uma musicalidade incrível.

Para começar, resolvi destacar a volta do Camisa de Vênus, grupo que ao meu ver foi um dos representantes mais importantes do verdadeiro rock’n’roll tupiniquim. Marcelo Nova, o vocalista, e Robério Santana são os únicos remanescentes para esta turnê de 35 anos de carreira, que visita as principais capitais e algumas cidades do interior do país.

Bahia, capital do rock?

Para muitos Brasília é o berço do rock no Brasil, porém não consigo imaginar não reconhecer  na terra da Raul Seixas um dos estados mais relevantes para o gênero. Foi em Salvador que o Camisa de Vênus deu os primeiros passos e as primeiras mostras do talento inegável, com uma constante crítica social, que depois seria constatado em canções como “Eu Não Matei Joana D’arc”, “Bete”, “Lena” ou “O Adventista”.

A banda surgiu em 1980 e, de cara, já foi sugerido pela gravadora Som Livre (que lançaria seu primeiro vinil em 1983) que mudasse de nome, pois era pesado demais para a época. Como a Aids ainda não havia explodido, o termo camisinha ainda era um escândalo. É óbvio que Marcelo nova não aceitou a imposição, e até brincou com o tema na canção “Passamos por Isso”, uma crítica direta ao mercado fonográfico.

Rock + Orquestra

Marcelo Nova sempre foi visionário, ninguém pode negar. E corajoso. Em 1986, ele resolve lançar o álbum “Correndo o Risco”, nome dos mais apropriados que já vi em anos de música.

O trabalho trouxe os hits “Simca Chambord” e “Só o Fim”, mas o risco mesmo estava na última faixa, “A Ferro e Fogo” (não confundir com a do Zezé di Camargo). Em letra diferenciada, Marcelo é acompanhado por uma orquestra. “Cada um por si, fique preparado/Estamos tão famintos e boiamos esgotados/Mas quase afogando, o desejo não termina/Pois navegar a esmo, talvez seja a nossa sina” é parte da letra forte da canção, que tem 7 minutos e cinquenta de duração.

Ouvi tantas vezes essa letra, que acabei usando numa prova de redação, no mesmo ano. Resultado: tirei 7,5 de nota. Graças a Marcelo Nova, Gustavo Mullem e Karl Franz Hummel, os verdadeiros autores.

Evolução e fim precoce

O som do Camisa, antes rude e pouco refinado, até mesmo cru demais, foi melhorando (e rapidamente) com o passar do tempo, processo que já ficou nítido em “Correndo o Risco”. Em 1987 os garotos lançavam um dos melhores álbuns de sua história: “Duplo Sentido”. Era apenas o quarto disco, mas já havia um ar de despedida.

O álbum duplo trazia canções que tocavam na ferida, mais uma vez, e arranjos bem bacanas. “Lobo Espiatório”, “O País do Futuro”, Voo 985″, “Ana Beatriz Jackson”, “Chamam Isso Rock and Roll” e “O Último Tango”  são exemplos disso. Com a maioria das letras autorais, o grupo ainda gravou releituras de clássicos como “Aluga-se” e “Enigma”.

Outra faixa obrigatória é “Muita Estrela, Pouca Constelação”, parceria com  Raul Seixas, mais uma música cheia de ironias e sarcasmo com o meio musical, que continua atual e cabe, inclusive, ao que acontece no sertanejo de hoje.

 

Carreira solo e parceria de peso

O que estava anunciado nas entrelinhas realmente aconteceu. Marcelo Nova lançaria em 1988 o álbum “Marcelo Nova e a Envergadura Moral”, com um som mais intimista, e canções belíssimas como “Algum Lugar” e “Imagens na Memória”. O disco também ficou marcado pela participação de Genival Lacerda na faixa “A Gente é Sem Vergonha”. Coisas de Marcelo.

O álbum não fez o mesmo sucesso dos tempos de Camisa, mas o melhor estava por vir. No ano seguinte, Marcelo realizou o sonho de gravar ao lado de Raul Seixas, desta vez um disco inteiro: “A Panela do Diabo”.

Onze faixas de tirar o fôlego, com a velha e boa crítica social de volta, com força total. “Carpinteiro do Universo”, “Pastor João e a Igreja Invisível”, “Rock ‘n’n Roll”, “Banquete de Lixo” e por aí vai…  Apesar da fragilidade de Raul, que já tinha o estado de saúde bastante precário, o disco vendeu mais de 150 mil cópias e rendeu uma turnê pelo país.

Rau Seixas receberia o Disco de Ouro de forma póstuma. Num trecho do documentário “Raul Seixas, O início, o Fim e o Meio” (recomendo muito) , que conta a vida de Raul através de depoimentos de pessoas que o conheceram de perto, é discutido se Marcelo teria se aproveitado de Raul nesta última turnê, considerando-se o estado físico dele.

Acredito que não tenha acontecido isso, pela devoção e carinho de Marcelo para com ele. Creio numa troca, Marcelo permitiu que Raul voltasse aos palcos e nos deixasse com um trabalho inédito, cantando.

A volta do Camisa, agora, é uma oportunidade de revê-lo nos palcos ou,  para os mais novos, conhecê-lo. Alguns ex-integrantes da banda vinham usando o nome, que é registrado por Marcelo Nova, que considero a alma do Camisa. O cantor conseguiu na justiça o direito de voltar a usá-lo. Camisa de Vênus sem Marcelo Nova é como o Vaticano sem o Papa.

E prepare a garganta para o desafiador (pelo menos na época) grito de “Bota pra foder!”,  com que eles eram recebidos nos shows . É bem verdade que hoje o bordão já não assusta mais ninguém, e parece mais uma frase ou receita que a gente imagina fazer parte das reuniões da equipe econômica em Brasília.

Carlos Guerra / Porteira Brasil

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